se alguém quer lutar ou dançar (em suma, compor o seu corpo no espaço e no tempo), pode reproduzir os passos de um expert ou de um manual, mas pode também ser sensível àquilo que surge e que o afeta durante o processo (o corpo do adversário, o corpo do parceiro, o clima, a textura do chão, etc). no caso da música, a composição pode se estabelecer em uma estrutura rígida com as paradas e avanços que criarão emoções previamente determinadas em um ouvinte ideal. ou, ao contrário, pode ser uma sobreposição de ritmos desconexos e melodias dissonantes que correm o risco de expulsarem o ouvinte ideal e aproximar o ouvinte criativo. pode-se preservar a tradição de uma comunidade tomando o passado como um conjunto de leis e regras que legitimam o (e são reproduzidas no) presente. por outro lado, o passado pode ser apenas um reservatório cuja função é fornecer guias para destacar o novo do agora e aumentar a distância rumo ao futuro. do mesmo modo, pode-se crescer como uma árvore (hierarquicamente: começo/meio/fim, “primeiro isso, depois aquilo”) ou se disseminar como um rizoma ligando os elementos de modo aleatório tendo apenas a intensidade como critério que guia a dispersão.

tudo isso não se trata de uma imagem poética, nem abstrata. são PROCEDIMENTOS distintos que não só diferenciam a vegetação (árvores X rizomas), mas também a pintura, a música, a política, a literatura, o desejo, a dança, a luta (o boxe X a capoeira)… o devir é meramente um procedimento que ignora a lógica da unidade e que PRODUZ A DIFERENÇA.

sabe os quadros do miró que, ao contrário da pintura tradicional, não representam uma figura, uma paisagem, um rosto bem determinado e que ao invés disso enfatizam o jogo livre de cores sobre o quadro?

é isso!